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# momentos spera mundi

por speramundi, em 19.11.12

 

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publicado às 14:26

9# A nova escravatura

por speramundi, em 15.10.12


[texto] Vanessa Rodrigues, jornalista (vnrodrigues@gmail.com) e [foto] António Morais (ajpmorais@gmail.com)

 

1. A chuva tem um efeito sedativo. Entorpece o entusiasmo e pincela de preguiça a mais espevitada vontade. Em Maribor não há muito que fazer quando o céu se põe a chorar. As esplanadas perdem conforto, os mariborenses encafuam-se em algum lugar secreto e resta na rua quem tem mesmo de trabalhar e os turistas que não sabem muito bem onde se encafuar. Uma livraria até poderia ser uma boa opção, não houvesse o constrangimento da Língua, parente muito distante da latina, que só com algumas lições de National Geographic para entender. Mesmo assim, melhor do que a chuva. Pode ser que pinguem conversas.

 

2. O museu regional Prokrajinski está escondido, embora esteja à vista de todos na praça Grajski. Só o vi, por acaso, quando já estava de saída da cidade, entre um jornal e outro que procurava, a roupa que se lavava na lavandaria e queimar os últimos cartuchos de uma cidade que não cheguei a ver com olhos atentos, porque urgia documentar o Spera Mundi. Desce-se umas escadinhas e entra-se nas catacumbas do castelo de Maribor. Praticamente inaugurei o museu nesse dia. Quer dizer, os funcionários estavam acabados de chegar e acendiam e apagavam luzes para a viajante perscrutar. Vi trajes medievais, carroças e baús antigos; vi a reconstituição de uma ervanária (igualzinha às nossas) e armas nas paredes. Porque razão a memória não nos é inculcada com um chip para que lembremos que a guerra é um mal maior, desnecessário. E também assim percebemos que Maribor já sangrou, com guerras, bombardeamentos. Hoje sofre com a crise, outras armas, as económicas e com a entrada na zona euro.

 

3. Graz avisa que não há muitas traduções de livros eslovenos para inglês. Ainda assim, como insistisse, tenta arranjar-me um que satisfaça. Sento-me a folhear, num canto, um livro de História da Eslovénia e outro de poesia. A poesia sempre parece mais original. A História como parece às vezes que se repete, cansa. E Graz está cansado da História. De um país, como a Eslovénia, próximo na fila de dependentes do FMI. Um país no acto de contrição da Zona Euro, talvez arrependido, conforme assegura o livreiro. Um país sem produção própria, com altas taxas de desemprego, com a angústia de uma moeda com a qual não se identifica. Um país com complexo de raiva contra a Áustria, com quem faz fronteira a norte.

 

4. Há algumas razões, pelas quais, a Eslovénia não se reconcilia com a História, como se vivesse, constantemente, com o peito apertado, à espera que algo aconteça. Leva no currículo nomes como independência, socialismo, comunismo, independentismo. Ao longo do temp fez parte dos Impérios Romano e Bizantino, da República de Veneza, do Ducado de Carantania, do Sacro Império Romano-Germânico, da Monarquia de Habsburgo, do Império Austríaco, depois Império Austro-Húngaro, do Reino dos Sérvios, Crotas e Eslovenos, mais tade Reino da Jugoslávia) e da República Socialista Federativa da Jugoslávia, até ao grito de independênca em 1991. Em 2004 juntou-se à União Europeia, faz parte do Acordo Schengen, da Zona Euro, da Oganização para a Segurança e Cooperação na Europa, do Conselho da Europa e da OTAN. Bem vistas as coisas, a Eslovénia, nunca foi totalmente independente e continua numa moderna ordem de tácita escravatura. Tal como Portugal, quem sabe, esta chuva de liberdades entorpeça, tenha, isso sim, um efeito sedativo. E enquanto houver armas...

 

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publicado às 16:13

6# Speramundando

por speramundi, em 01.10.12

[fotos/edição] antónio morais e vanessa rodrigues


 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado às 13:36

5# Speramundando

por speramundi, em 30.09.12

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publicado às 13:27

onde se fazem ditaduras

por speramundi, em 30.09.12

texto de vanessa rodrigues a partir do espetáculo Aduela

 

A música tem arames que se arranham.

Murmúrios e geremias.

São guitarras, são harpas, são rufares ao longe,

 

são címbalos, guitarras acústicas onde deslizam dedos cansados,

 

assobios, ligeiras mágoas musicadas,

esperanças, risos, mudos pensamentos parados,

enganos,

manipulações dedilhadas com a retórica,

a promessa de suspicazes vontades,

gracejos que só os suspiros sabem fazer,

madeiras que roçam,

corpos a estrebuchar, miméticos,

chaplinianos como no cinema,

mudos, de olhares impositivos, opressivos,

 

agora essas mesmas guitarras,

 

como máquinas,

 

como chaminés monótonas de comunistas vontades, são número;

 

vamos vestir-lhes de ideologias,

despir o cérebro,

entorpecer de ruídos brancos,

o pau na cabeça,

as roupas que se vestem-despem-vestem-despem;

 

estridentes guitarras, estridentes, metálicas, acutilantes,

 

reverberadas em ruidosas irritações auditivas,

parem que sufoca,

parem que atrofia,

parem que incomoda,

parem, façam silêncio,

mudas vontandes,

inertes ideologias,

parem que sufocam,

parem, que se desmorona cá dentro,

parem que temos frio,

cessem as guitarras,

 

estrídulas vozes,

 

as violentas acústicas que nos ensurdecem,

parem de silenciosas propagandas,

parem, deixem que o sangue escorra,

taciturnos, usem o silenciador,

a caçadeira de cano cerrado,

o jogo cerebral, tiro ao alvo,

a mentira-a-verdade-a-mentira,

dissimulem, schhh, escondam,

 

escondam o embuste,

 

dobrem os caracteres,

 

batam palmas, psicadélicos,

 

dancem até cair, tombem,

 

deixem tombar,

 

e quando mais nada restar,

 

escondam de novo,

 

enterrem,

 

abram a cova de terra e cubram de flores,

que outros corpos hão-de nascer,

 

novos livros se hão-de escrever,

 

novos e os mesmos erros havemos de cometer.

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publicado às 02:42

4#teaser, soletramos mundo

por speramundi, em 30.09.12

 

*Vídeo/Ficha técnica* [Edição e Ideia original] Vanessa Rodrigues e António Morais [Cinematógrafo] António Morais [Música Original] Bilan [co-produção] Concept View

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publicado às 02:41

8# O Porto é Macau, o resto é paisagem

por speramundi, em 28.09.12

 

[texto] vanessa rodrigues, jornalista [foto] antónio morais

 

Quase ninguém sabe muito bem para que servem as cidades geminadas, assim como também não se percebe claramente para que servem as capitais europeias da cultura (nem os talk shows, nem a overdose de redes sociais, ...), nem mesmo o plano tributário – que será o mesmo que a guilhotina – que o primeiro-ministro português apresentará para 2013. No último caso, porém, podemos ter a certeza de que será mais um assalto à mão armada, mas como estamos quase falidos de competência democrática para exercer o direito ao basta, asfixiados nas ruas em protesto por forças policiais pidescas, mordaças e camisas de força sociais, está aparentemente tudo bem. Quanto ao resto, vamos por partes, que o cepticismo generalizado, assim como os consensos, é uma análise falaciosa e superficial. É uma espécie de ruído branco. Um resto de paisagem.

 

***

 

O grupo de Macau Point of View Art Association teve de se adaptar. Ajustar ao exíguo espaço do espetáculo em Maribor, na Eslovénia, para representar Playing Landscape, a dança-performance, dirigida pela Hope CHIANG. Um espaço quase asfixiante para um espetáculo cheio de oxigénio. Mas, também surgido de opostos: da urbanidade caótica, dispersiva, que constrange, e da natureza, a quem ceifamos vida com os nossos hábitos diários. O espaço: no centro da segunda maior cidade eslovena, foi o White Noise – o que à letra significaria ruído branco, i.e., é um "tipo de ruído produzido pela combinação simultânea de sons de todas as frequências”.

 

Traduzindo: pode servir para mascarar outros sons, um tapete sonoro para desviar atenções.

 

Com este “Playing Landscape”, porém, o White Noise cresceu, com a luz, com o branco ao redor. E a noite caída lá fora (depois de um vinho do Porto servido pela Celeste). Toda esta viagem, foi, aliás uma constante adaptação de espaço: das caravanas, das vontades de outro, outros, da gestão de imprevistos, dos desagrados e do stress do desgaste de trabalho, viagem, montagem, vida de caravana. No limite, um ruído branco de contexto espacial, mutante, tal como a água esguichada para o papel branco do Playing Landscape, onde os corpos elásticos e contemplativos de Chloe LAO, Mae Wu, Yang HAO e Kaman IP, se moldavam a uns e outros, ao chão, ao ar, aos cantos, ao chapinhar de água na terrina branca.

 

Adaptação até mesmo à tinta preta, a tinta da china, ao pó, ao negro do branco. Melhor tomar nota: teremos, sempre, demasiado a aprender com os opostos.

 

***

 

Yang Hao quer ficar mais tempo em Portugal. É tudo novo. Os paladares, o vinho, os abraços mais apertados, os beijos e o nosso modo de gesticular, intensamente, que parece estarmos em contínuo desacato com os outros. O dançarino de 25 anos quer ficar no Porto, cidade que até é geminada com Macau, para troca de experiências, ou como se lê no site da autarquia portuense, para “trabalhar o contexto privilegiado de relacionamento e de cooperação com os países da Lusofonia, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida das populações e para a preservação de uma herança cultural e patrimonial comum”.

 

Yang Hao quer ficar, mas não pode. Não pode porque a cultura ainda tem fronteiras. Muitas.

 

Embora para os artistas chineses sejam mais fácil sair da República Popular da China por uns meses, será difícil conseguir um visto que estenda a permanência do jovem, constata-se. Talvez seja para isto que, também, há-de servir uma capital europeia da cultura: para misturar as vontades e as visões armilares do mundo, muito embora esta viagem, em jeito de declaração de princípios, corresse o risco de não acontecer. Não suceder porque, enquanto não fosse recebido parte do orçamento aprovado para a continuidade do projeto seria inexequível fazermo-nos à estrada. E, mesmo assim, impôs-se um imenso ruído branco: não conseguimos parar nos destinos a que o projeto de propôs por razões que dependeram de vontades institucionais. Isto impõe o óbvio: repensar a forma como se organizam e estruturam os orçamentos e respetiva gestão das capitais europeias da cultura. Algo parece contraproducente, inerte; e revoltante: como concebemos que as vidas dos outros fiquem subordinados? Por que dependemos em cadeia para que aconteça? Algo muito crónico se anda a passar com a forma como nos organizamos socialmente.

 

***

 

A música de NJO Kong Kie emociona. Uma subtileza no corpo de Chloe, nos dedos de Mae, na seriedade de Ka Man. Através deles conhecemos um pouco de Macau, hoje. E, afinal, não sabemos nada: o que é Macau neste presente? Casinos? Gente apinhada nas ruas? Néons resplandescentes? Tem de haver mais em Macau e é preciso ver com o próprio corpo. Macau será mais porque esta Playing Landscape tem natureza em estado puro, tem os cinco elementos, tem leveza e contemplação. E escrever no branco do papel com água (a luz é essencial para esta percepção), como Ka Man o faz, a certa altura, do espetáculo, que mistura dança, drama e performance, é mestria simbólica. A técnica deve-se à designer macaense Cindy Ng Sio - que na década de 90 do século XX fez cursos de gravura com o gravador português Bartolomeu dos Santos.

Depois, desenhar o corpo com a sombra do branco das paredes como os quatro corpos em cena o fazem é ter o mesmo efeito em nós que a Europa tem para Yang Hao. Para nós, ocidentais, este espetáculo é tudo novo, queremos ficar mais um bocado. Por momentos achamos que para a cultura não é preciso visto. A forma como olhamos a paisagem é que muda, o resto permanece.

É isto:andamos aqui a trocar experiências. Resultamos da troca. Se isto merece fronteiras...caro leitor. Senão vejamos: há algo de errado na visão armilar do mundo quando lhe pomos limites.

 

FICHA ARTÍSTICA / HOPE CHIANG DIREÇÃO / CINDY NG AGUARELA / NJO KONG KIE MÚSICA / HELLEN SKY, SANDRA PARKER COREOGRAFIA / GABRIEL FONG LUZ E IMAGEM / ANA KEI FIGURINOS / CALVIN LAM DIREÇÃO DE CENA / NICHOLAS TANG PRODUÇÃO E TOUR MANAGER / ERIK KUONG PRODUTOR / CHLOE LAO BAILARINA / YANG HAO BAILARINO / MAE WU, KAMAN IP PERFORMER / POINT VIEW ART ASSOCIATION PRODUÇÃO / OUT TO (TAIWAN), DIRKS THEATRE (MACAU) COLOBORAÇÃO / OFFICE OF THE SECRETARY FOR SOCIAL AFFAIRS AND CULTURE OF MACAO S.A.R., CULTURAL AFFAIRS BUREAU OF MACAO S.A.R. MACAO FOUNDATION PATROCINADORES 

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publicado às 13:59

Aduela em Maribor, montagem

por speramundi, em 24.09.12

*Vídeo/Ficha técnica* [Edição e Ideia original] Vanessa Rodrigues e António Morais [Cinematógrafo] António Morais [Música Original] Bilan [co-produção] Concept View

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publicado às 00:21

3# teaser, Maribor fala português

por speramundi, em 23.09.12

*Vídeo/Ficha técnica* [Edição e Ideia original] Vanessa Rodrigues e António Morais [Cinematógrafo] António Morais [Música Original] Bilan [co-produção] Concept View

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publicado às 13:11

Gostamos de ser incomodados

por speramundi, em 22.09.12

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publicado às 17:02


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